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Necessário Ler: G. K. Chesterton 

                                                               Todd Kappelman 

Um cristão para o século vinte

Este artigo é outro de nossa série Necessário Ler. O propósito da série é apresentar as pessoas autores diversos e fazê-las conhecer bem a sua obra. Infelizmente, muitas pessoas que gostam de C. S. Lewis e Francis Schaeffer desconhecem o trabalho de Gilbert Keith, ou G. K. Chesterton (1874-1936), admirado por ambos. George Bernard Shaw o chamou de "gênio colossal" e Papa Pio XI o chamou de um "filho dedicado da Santa Igreja e um talentoso defensor da fé". {1}

Até sua morte aos 72 anos, Chesterton foi uma figura dominante na Inglaterra e um forte defensor da fé, e ortodoxia cristã, como também um entusiástico da Igreja católica romana. Além de quase cem livros, ele escreveu para mais de 75 periódicos britânicos e cinqüenta publicações americanas. Ele escreveu crítica literária, argumentação religiosa e filosófica, biografias, peças, poesia, versos, histórias de detetive, romances, histórias pequenas, e comentários econômicos, políticos, e sociais. {2}

Uma excelente introdução para Chesterton pode ser achada em um livro titulado Ortodoxia publicado nos Estados Unidos em 1908 (N.do T.: no Brasil, você pode comprar o livro aqui), e afetuosamente dedicado sua mãe . Em Ortodoxia Chesterton faz uma defesa apologética de sua fé cristã . Ele cria que esta defesa era necessária para responder algumas críticas dirigidas a seu livro anterior, Heréticos. {3}

Antes de Schaeffer escrever Fuga da Razão, Chesterton intitulou o terceiro capítulo da Ortodoxia de "The Suicide of Thought" (O Suicídio do Pensamento) uma crônica da morte do homem moderno. 

Chesterton dizia que nós sofremos hoje da humildade no lugar errado. "A modéstia se moveu para o órgão da ambição. A modéstia se tornou o lugar da ambição; onde nunca significou ser. O homem duvidava sobre si, mas não sobre a verdade; isto foi invertido. Hoje em dia a parte do homem que afirma, é exatamente a parte que ele deve duvidar de si mesmo. A parte que ele duvida é exatamente a parte que ele não deve duvidar." The Divine Reason". {4}

Chesterton acreditava que a autonomia do homem tinha sido elevada além da razão de Deus; cada indivíduo se tornou seu próprio mestre. As pessoas não podem ver nenhuma resposta para o problema da religião, mas isso não é a dificuldade com as pessoas modernas. O homem moderno, disse Chesterton, nem mesmo pode observar o enigma. 

Os homens modernos, ele acreditava, tinham se tornado como pequenas crianças que são tão estúpidas que nem mesmo fazem assertivas filosóficas corretas. {5} Chesterton, como C. S. Lewis e Francis Schaeffer, compreendeu que a religião no século XX ficaria muito filosófica até mesmo para o homem comum. Chesterton nos lembra que os cristãos estariam vivendo por um tempo quando muitos dos amigos deles, família, e vizinhos, como também os colegas de trabalho e cônjuges, já não estariam vivendo como se o homem tivesse de ser razoável. Depois Francis Schaffer chamaria este mesmo fenômeno cultural de idade da não-razão

Chesterton orgulhava-se muito de ser um católico romano, e freqüentemente defendeu a Igreja tanto quanto a fé em geral. Ele era um católico romano que várias vezes discutia sobre o cristianismo Universal e talvez, será visto pela maioria das pessoas, tal como C. S. Lewis, um "mero tipo de cristianismo " de aproximação para a fé. 

Chesterton e um Cristianismo Razoável 

Em seu livro O Homem Eterno pode se ver um Chesterton maduro. Foi escrito em 1925 só três anos depois da Igreja católica romana o ter recebido à idade de quase cinqüenta. Neste livro, Chesterton coloca um estilo de argumentação chamado de reductio ad absurdum.{6} Ele mostra algumas das afirmações dos racionalistas e agnósticos para mostrar a absurdidade do ponto de vista deles. Ele começa com uma demonstração que se o homem é tratado como um mero animal o resultado não só seria ridículo, mas o mundo não existiria em seu estado presente. Os homens não agem como se não houvesse nada de especial neles. Eles agem como se o homem fosse o ser mais superior e a suprema realização do Universo. 

Em uma seção intitulada "The Riddles of the Gospel" (Os Enigmas do Evangelho), Chesterton tenta mostrar como seria um indivíduo se confrontar com os Evangelhos e realmente encontrar o Cristo de lá. Ele não acharia um Cristo que se parece com outros professores morais. O Cristo apresentado no Novo Testamento não é estúpido ou insípido. Ele é dinâmico e inigualável em toda a história. O Cristo dos Evangelhos é cheio de perplexidades e paradoxos. 

Os livres-pensadores e muitos incrédulos, disse Chesterton, criticam às aparentes contradições achadas na Bíblia, especialmente a Cristo. Jesus disse a seus seguidores que dessem a outra face e não se preocupassem com o amanhã. Porém, ele não deu a outra face quando expulsou os vendilhões do Templo e constantemente estava ensinando as pessoas a se prepararem para o futuro. Da mesma forma, a visão de Cristo do matrimônio é sem igual em toda a história. Os judeus, romanos, e gregos não acreditavam ou até mesmo entendiam o bastante para descrer da idéia mística de que o homem e a mulher tinham se tornado uma substância sacramental na união matrimonial. {7} A visão de Cristo do matrimônio não é nem um produto da cultura dele nem mesmo um desenvolvimento lógico da época. É um ensino totalmente estranho e maravilhoso que tem o estigma de ser de outro mundo. 

Antes de C. S. Lewis ter formulado suas observações que o Cristo ou é um mentiroso, um lunático, ou Senhor, Chesterton tinha disposto o mesmo problema. O Cristo do Novo Testamento, Chesterton disse, não é uma mera figura mítica. Ele não pode ser só outro professor ético ou até mesmo um bom homem; estes pontos não seriam aceitos por uma pessoa que lesse o Novo Testamento corretamente. O resto da pergunta é: Quem é Cristo?

Em O Homem Eterno Chesterton diz que cada uma das explicações acima mencionadas são inadequadas. A idéia que o Cristo era um lunático, ou até mesmo um bom professor, perde um pouco do mistério que Ele tinha. {8} Deve haver algo em uma pessoa que tão misteriosa e que inspirou tanta controvérsia quanto Cristo. 

O Cristo era quem Ele disse que era e é infinitamente mais misterioso que a mente humana finita pode compreender. Nos seus escritos, G. K. Chesterton demonstra que ele é um escritor cristão que possuiu esses conhecimentos raros e necessários que permitem entender difíceis problemas teológicos e filosóficos e discutidos pelo homem comum. 

As reflexões de Chesterton na América 

Os escritos de Chesterton cobrem desde tendências teológicas, filosóficas, sociais, políticas, e econômicas com atenção particular para uma cosmovisão cristã. Nas duas obras: O Que Eu Vi na América e Sidelights, Chesterton oferece para o leitor suas reflexões na América durante a primeira parte do século XX. 

Em 10 de janeiro de 1921 Chesterton e sua esposa Frances começaram uma excursão de três meses na América. A primeira parada deles foi na cidade de Nova Iorque. Aqui, Chesterton viu as luzes da Broadway e proclamou: "que glorioso jardim de maravilhas poderia ser isso a qualquer um que pudesse ler." {9} Assim começam as observações desse grande homem e suas impressões do Novo Mundo, arranha-céus, a América rural, a política de Washington, e a condição espiritual da nação. 

Alguns dos temas centrais que emergem em Sidelights, e especialmente em O Que Eu Vi na América, são as visões de Chesterton dos efeitos do racionalismo, comercialismo, e a pobreza espiritual geral de muitos americanos. Embora ele esteja pintando uma cena com grandes pinceladas, muito pode ser aprendido de como era o homem na primeira metade do século XX e como nós nos tornamos agora.

Chesterton pôde ver ambos os lados da experiência americana: o sonho como também o pesadelo. Ele parece ficar no equilíbrio de algum sonho utópico que paria na mente de alguns americanos com a realidade de vida de alguns. Chesterton disse que a primeira impressão dele da América foi de algo enorme e bastante antinatural, e foi gradualmente suavizado pela sua experiência de generosidade entre as pessoas. Além disso, e com toda a sinceridade, disse ele que havia algo de sobrenatural sobre o sistema vasto que parecia ser um tipo de procura por um futuro utópico. Ele disse "a marcha para Utopia, a marcha para o Paraíso Terrestre, a marcha para a Nova Jerusalém, foi em grande parte a marcha para a Main Street. A maior sensação atual é um livro" se referindo aqui a novela de Sinclair Lewis, Main Street, escrita em 1920 e "escrita para mostrar como é miserável viver lá". {10}

Chesterton freqüentemente pensou na América e nela buscaria um dos temas mais favoritos dele durante quase vinte e cinco anos de sua primeira visita. Suas discussões sobre beber e fumar pode parecer a muitas leitoras algo marginal, um tipo de antiquada diversão masculina. Mas estes temas eram cruciais à visão de Chesterton de uma vida completa e para ele um moralismo extraviado representado nos Estados Unidos. A incongruência puritana dos americanos serviria a Chesteron como um ponto de partida para todo o pensamento dele sobre o Novo Mundo. 

Chesterton era inglês e podia oferecer críticas do ponto de vista de um estrangeiro sem as dificuldades da barreira do idioma. Embora ele soubesse que seu país na Europa estava passando pelas mesmas mudanças filosóficas e sociais, foi a velocidade com a qual a América estava abraçando essas idéias que o alarmou. Em O Que Eu Vi na América qualquer um verá o que Chesterton descobriu achando alarmado e perigoso sobre nosso país na primeira metade do vigésimo século. 

Chesterton foi confrontado com proibição em ambas as viagens dele para a América e estava bastante preocupado com aspectos cristãos e suas implicações na sociedade. Ele nunca se cansou da metáfora estendida da proibição como a condição de religião nos Estados Unidos. Fazendo uma comparação entre a Nação de Carrie e os Anticonformistas na Inglaterra, Chesterton acreditou que ambos os grupos sofreram de uma noção imóvel da natureza do Cristianismo. {11}

Chesterton viu neste legalismo da proibição da bebida alcóolica na América um indicador de como a religião Protestante estava errada no momento. Ele fez uma bela aposta que se um autor popular americano mencionasse religião e moralidade no começo de um parágrafo, ele mencionaria bebida alcoólica pelo menos antes do fim. Aos homens de outras religiões e crenças isso pareceria estranho. {12} O resultado natural era que o homem comum sempre imaginou o Cristianismo como sendo só uma proibição contra fumar e beber. Como conseqüência, a salvação tinha muito mais a ver com abstinência do que com regeneração. 

A hipocrisia vitoriana era que havia orações e uma forma de religião, mas só para encobrir uma mentalidade anti-tradicionalista. O cristão comum, Chesterton acreditava, estava professando a religião dele por um lado e estava abraçando um comercialismo industrial penetrante e destrutivo no outro. {13} O olhar de Chesterton era de um homem que testemunhou um novo fenômeno estranho: cristãos que juntam sua prosperidade com a fé . 

Apesar de uma Grande Depressão, uma guerra mundial que conduziria logo a outra, e numerosas injustiças sociais, o século vinte nos ano trinta ainda era uma época em que havia muita propriedade de carros, férias regulares, altos salários e vida próspera para muitos americanos. Esta era a verdadeira formação do sonho americano, e seria a visão mais grosseira do materialismo. 

Chesterton foi severo nessas afirmações várias vezes. Primeiro, havia então e ainda permanecia um grande segmento da população Cristã que acreditava que a fé Cristã era um pouco mais do que uma lista de proibições. Não é que não há coisas que os cristãos devem e não devem fazer, mas o perigo é abafar a fé cristã com essa atitude. Para Chesterton a idéia que os bons cristãos não bebem seria equivalente a dizer que tem que se usar uma gravata no domingo pela manhã para se estar bem na fé. Da mesma forma que alguns consideram que a declaração é ridícula e confusa a Chesterton, como também C. S. Lewis, por isso alguns cristãos americanos não reconheceram o mesmo na declaração anterior. 

Como com relação ao sonho americano, as palavras de Chesterton são ainda uma advertência para o modo no qual os americanos, cristãos e não-cristãos, se tornaram em grande parte uma nação de consumidores. Nós podemos ler suas palavras da primeira metade do século vinte como uma advertência para nós agora. 

A irracionalidade do homem moderno 

Chesterton foi um prolífico jornalista cujas contribuições para mais de cem jornais e periódicos americanos e britânicos continuam sendo lidas por cristãos ao longo do mundo. Ainda é necessário avaliar a grandeza desse homem mesmo em pequenos trabalhos. 

Em T. P. Weekly em 1910, Chesterton escreveu um pequeno artigo intitulado What is Right with the World? (O que Está Certo com o Mundo?) Nele reconhece o fato que o mundo não parece se apresentar bem em algum aspecto vital e que este fato quase não pode ser discutido. {14} Porém, Chesterton não deixa o leitor com a observação pessimista que o mundo não é um lugar muito agradável. Ele diz que a única coisa que está certa no mundo é o próprio mundo. Esse fato é real já que o homem e a mulher foram criados perfeitos. O fato que algumas coisas estavam erradas não afligiu Chesterton; somente disse isso numa certa vez em que disse que fomos criados bons e agora somos maus. A escuridão do mundo, Chesterton disse, não é tão negra se nós reconhecemos como e por que as coisas estão como elas estão. 

Em um certo ponto em um trabalho chamado O Homem Comum Chesterton tenta mostrar por que é necessário todo indivíduo ter uma filosofia. A melhor razão é que aquelas certas coisas horríveis acontecerão a qualquer um que não possui algum tipo de visão mundial coerente. {15} Parecendo um apologista Cristão contemporâneo, Chesterton disse que um homem sem uma filosofia seria sentenciado a se manter sempre sob a filosofia da massa. {16}

Chesterton continua desafiando a idéia do que a filosofia é para uma pessoa, dizendo que a maioria de nossos males modernos é o resultado do desejo de uma boa filosofia. Filosofia, ele disse, pensava-se somente ser para o que tinha sido estipulada originalmente . Todos os homens testam todas as coisas. A pergunta é se o teste alguma vez foi testado. {17} Todos podem ver em Chesterton o mesmo chamado para se pensar e refletir que Francis Schaffer usou cinqüenta anos depois para chamar uma geração inteira de cristãos para se tornarem mais filosóficos e começarem a usar a cultura de uma forma mais substancial. 

Nós tentamos dar-lhes aqui mais um motivo para se ler G. K. É necessários os leitores de C. S. Lewis, Francis Schaeffer, Os Guinness, ou Peter Kreeft lerem seus trabalhos. Fechando, o poema de Chesterton The Happy Man (O Homem Feliz) do livro The Wild Night (A Noite Selvagem) serve como uma conclusão: 

Para ensinar a terra cinzenta como uma criança, 
O arrependimento dos céus, 
Eu só pergunto para o destino o dom 
De um homem bem contente. 
Ele quer que eu O encontre: embora quando não sei 
Eu procuro nas feiras e praças, 
As desvanescentes flores da liberdade, 
As máscaras pintadas da arte. 
Eu só o encontro como o último, 
Em uma velha colina onde acena 
A Trindade horrível do Gólgota -
Três pessoas e um Deus. 
Notas 1.Robert Knille, ed., As I Was Saying: A Chesterton Reader (Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 1985.), 3. 

2.Ibid. 

3.G. K Chesterton, Ortodoxia, in The Collected Works of G. K. Chesterton, David Dooly, ed. (San Francisco: Ignatius Press, 1986), vol. I, 211. 

4.Ibid., 234-235. 

5.Ibid. 

6.G. K. Chesterton, The Everlasting Man, in A Chesterton Anthology, P.J. Kavanagh, ed. (San Francisco: Ignatius Press, 1986), 416. 

7.Ibid., 422. 

8.Ibid., 424. 

9.Robert Royal, "Introduction," in G. K. Chesterton: Collected Works (San Francisco, Ignatius Press 1990), 9. 

10.G. K. Chesterton, "What I Saw in America," in G. K. Chesterton: Collected Works (San Francisco, Ignatius Press

1990), 105. 

11.G. K. Chesterton, "Sidelights," in G. K. Chesterton: Collected Works (San Francisco, Ignatius Press 1990), 565. 

12.Ibid. 

13.Ibid., 513. 

14.G. K Chesterton, "What is Right with the World?," collected first in The Apostle and the Wild Ducks, 1975, P. J. Kavanagh, ed. (San Francisco: Ignatius Press, 1986), 343. 

15.Knille, 80. 

16.Ibid. 

17.Ibid., 82. 

© 2000 Probe Ministries International

Tradução de Emerson de Oliveira.
 
 

Sobre o Autor 

Todd A. Kappelman é um sócio de campo da Probe Ministries. Ele é diplomado pela Universidade Batista de Dallas (B.A. e M.A.B.S., religião e grego), e pela Universidade de Dallas (M.A., filosofia/humanidades). Atualmente ele obtêm um Ph.D. em filosofia na Universidade de Dallas. Ele serviu como diretor assistente do Trinity Institute, um centro de estudos dedicados ao pensamento Cristão e investigação. Ele foi o editor administrador de The Antithesis, uma publicação bi-mensal dedicada à crítica de filmes estrangeiros e independentes. Sua área principal de trabalho é filosofia Continental (especialmente do século XIX e XX) e pensamento pós-moderno. 
 

 

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