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                                       Darwin sob o microscópio 
por Michael J. Behe


Michael J. Behe, professor adjunto de Bioquímica na Universidade Lehigh, é o autor de "A Caixa Preta de Darwin: O Desafio da Bioquímica à Teoria da Evolução" (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997).

The New York Times, Outubro 29, 1996 Seção A, Final de Terça-feira; Página 25; Coluna 2; Editorial 


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Bethlehem, Pensilvânia:A declaração do Papa João Paulo II de que a evolução é "mais do que apenas uma teoria" são notícias antigas para um cientista católico como eu. Eu fui criado numa família católica e sempre acreditei em Deus. Mas começando na escola paroquial fui ensinado que Ele poderia usar os processos naturais para produzir a vida. Contrário à sabedoria convencional, a religião já criou espaço para a ciência há muito tempo. Mas, à medida que a biologia descobre complexidade impressionante na vida, a pergunta se torna em -- pode a ciência dar espaço à religião?

Nesta sua declaração, o Papa teve o cuidado em salientar que é melhor falar sobre "teorias da evolução" do que apenas numa única teoria. A distinção é crucial. Na verdade, até a conclusão de meus estudos de doutoramento em bioquímica, eu acreditava que o mecanismo de Darwin -- mutação randômica juntamente com a seleção natural -- era a explanação correta para a diversidade da vida. Agora, contudo, eu considero a teoria incompleta.

Na verdade, o design/planejamento complexo da célula provocou em mim correr o risco de um posicionamento distintamente minoritário entre os cientistas sobre a questão do que provocou a evolução. Eu acredito que o mecanismo de Darwin para a evolução não explica muito daquilo que é visto sob um microscópio. As células são simplesmente complexas demais para terem evoluído randomicamente; inteligência foi exigida para produzi-las.

Eu quero ser explícito sobre o que estou e não estou questionando. A palavra "evolução" trás consigo muitas associações. Geralmente significa descendência comum -- a idéia de que todos os organismos vivos e mortos são relacionados por uma ancestralidade comum. Não tenho nenhuma objeção à idéia de descendência comum, e continuo a pensar que ela explica as semelhanças entre as espécies. Por si mesma, contudo, a descendência comum não explica as vastas diferenças entre as espécies.

É onde o mecanismo de Darwin entra. "Evolução" algumas vezes também implica que a mutação randômica e a seleção natural impulsionaram as mudanças na vida. A idéia é que, somente por acaso, um animal que nasceu era um pouco mais rápido ou mais forte do que seus parentes. Seus descendentes herdaram a mudança e eventualmente ganharam a luta da sobrevivência sobre os descendentes de outros membros das espécies. Com o passar do tempo, a repetição do processo resultou em grandes mudanças -- e, na verdade, em animais totalmente diferentes.

Esta é a teoria. Uma dificuldade prática, contudo, é que ninguém pode testar a teoria a partir dos fósseis. Para testar realmente a teoria, alguém tem que observar a mudança contemporânea no ambiente selvagem, no laboratório ou pelo menos reconstruir um caminho detalhado que possa levar a uma certa adaptação.

A teoria darwinista explica com sucesso uma variedade de mudanças modernas. Os cientistas têm demonstrado que a média do tamanho dos bicos dos tentilhões de Galápagos mudaram devido a padrões de variações climáticas. Do mesmo modo, a proporção de mariposas escuras para claras na Inglaterra alteraram quando a poluição tornou as mariposas claras mais visíveis aos predadores. As bactérias mutantes sobrevivem quando se tornam resistentes aos antibióticos. Estes são todos exemplos nítidos da seleção natural em ação. Contudo, estes exemplos envolvem apenas uma ou algumas mutações, e o organismo mutante não é diferente de seu ancestral. Assim, para explicar o todo da vida, uma série de mutações teria que produzir mui diferentes tipos de criaturas. Isto ainda não foi demonstrado.

A teoria de Darwin encontra suas grandes dificuldades quando tem que explicar o desenvolvimento da célula. Muitos sistemas celulares são o que denomino de "irredutivelmente complexo" . Isso significa que um sistema precisa de diversos componentes antes que possa funcionar adequadamente. Um exemplo diário de complexidade irredutível é uma ratoeira, construída com diversas peças (plataforma, martelo, mola e assim por diante). Tal sistema provavelmente não pode ser disposto de uma maneira darwiniana, gradualmente melhorando sua função. Você não pode pegar um rato apenas com a plataforma e depois pegar alguns mais adicionando a mola. Todas as peças devem estar no lugar antes que você pegue alguns ratos.

Um exemplo de um sistema celular irredutivelmente complexo é o flagelo bacteriano: um rotor, impulsionado por um fluxo de ácido que a bactéria usa para nadar. O flagelo requer um número de peças antes que funcione -- um rotor, um estator e motor. Além disso, estudos genéticos têm demonstrado que cerca de 40 tipos diferentes de proteínas são necessárias para produzir um flagelo que funcione.

O sistema de transporte intracelular também é bem complexo. As células das plantas e dos animais estão divididas em muitos compartimentos discretos; suprimentos, incluindo as enzimas e as proteínas, têm que ser transportadas entre estes compartimentos. Alguns suprimentos são empacotados em 'caminhões moleculares', e cada 'caminhão' tem uma chave que caberá somente na 'fechadura' de cada determinada destinação celular. Outras proteínas agem como 'estaleiros de carregamento', abrindo o 'caminhão' e permitindo que as 'cargas' cheguem ao compartimento de destino.

Muitos outros exemplos poderiam ser citados. O fato importante é que a célula -- a base essencial da vida -- é espantosamente complexa. Mas a ciência já não tem as respostas, ou respostas parciais, para como esses sistemas se originaram? Não. Como James Shapiro, um bioquímico na Universidade de Chicago escreveu, '"Não há relatos darwinianos detalhados para a evolução de qualquer sistema bioquímico ou celular fundamental, somente uma variedade de especulações fantasiosas".

Alguns cientistas têm sugerido teorias não-darwinianas para explicar a célula, mas eu não as acho persuasivas. Em vez disso, eu penso que os sistemas complexos foram planejados -- dispostos propositadamente por um agente inteligente.

Sempre que virmos sistemas interativos (tal qual uma ratoeira) no dia a dia, supomos que eles são produtos de atividade inteligente. Deveríamos estender este raciocínio para os sistemas celulares. Não conhecemos nenhum outro mecanismo, incluindo o de Darwin, que produza tal complexidade. Só a inteligência é capaz de fazê-lo.

Claro, eu poderia estar errado. Se alguém pudesse demonstrar que, por exemplo, um tipo de bactéria sem o flagelo pudesse produzir gradualmente tal sistema ou produzir qualquer nova estrutura comparavelmente complexa, minha idéia seria habilmente refutada, mas eu não espero que isso aconteça.

O design/planejamento inteligente pode significar que a explicação final para a vida esteja além da explicação científica. Esta afirmação é prematura, mas mesmo que seja verdade, eu não me perturbaria. Eu não quero a melhor explicação para as origens da vida. Eu quero a explicação correta.

O papa João Paulo falou de 'teorias da evolução'. Agora mesmo parece que uma dessas teorias envolve o design/planejamento inteligente.

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