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BÍBLIA SEPTUAGINTA [*]

("Versão Septuaginta" ou "Versão dos LXX")

 

     A Versão Septuaginta [1] é a primeira tradução, do Velho Testamento hebraico, feita em grego popular, antes da era cristã. Este artigo irá tratar de:

I. Importância da versão;

II. Origem da versão:

     A) De acordo com a tradição;

     B) De acordo com a visão comumente aceita;

III. Sua história subseqüente, recensões, manuscritos e edições;

IV. Seu valor crítico; idioma.

 

 

I

IMPORTÂNCIA HISTÓRICA DA SEPTUAGENÁRIA

 

     A importância da Versão Septuaginta é demonstrada pelas seguintes considerações:

     a) A Septuaginta é a tradução mais antiga do Antigo Testamento e de valor inapreciável a críticas, na medida em que nos faz entender melhor e corrigir o texto hebraico [do Antigo Testamento], a Massorah [2] , mais recente, tal como nos é apresentado em um texto estabelecido pelos massoretas [3] no século VI d.C. Muitas alterações, adições, omissões e transposições textuais se fizeram presentes dentro do texto hebreu entre os séculos III e II a.C. e os séculos VI e VII da nossa era. Os manuscritos que os Setenta tinham à sua disposição, por vezes podem ter sido melhores do que os manuscritos massoréticos [4] ;

     b) A Versão Septuaginta, aceita primeiro pelos Judeus Alexandrinos [que habitavam a cidade de Alexandria, no Egito] e, em seguida, por todos os países de língua grega, ajudou a divulgar entre os pagãos a idéia da espera de um Messias e a introduzir, no Grego, a terminologia que o fez o instrumento mais adequado para a propagação do Evangelho de Cristo;

     c) Os judeus se utilizaram dele [desse texto grego] antes da era cristã e na época de Cristo. Foi reconhecido como texto legítimo e empregado na Palestina até por rabinos. Os apóstolos e evangelistas o utilizaram e também emprestaram dele algumas citações do Antigo Testamento, especialmente as profecias. Os Padres [5] e outros escritores eclesiásticos da Igreja primitiva basearam-se nele, assim como os Padres latinos e escritores e outros que empregaram as versões em latim, sírio, etíope, árabe e gótico. Era altamente estimada por todos sendo, até mesmo, considerada inspirada, por alguns. Conseqüentemente, um conhecimento da Septuaginta ajuda a uma perfeita compreensão dessas literaturas.

     d) Atualmente, a Septuaginta é o texto oficial da Igreja Grega [6] . As antigas Versões Latinas, usadas na Igreja ocidental, foram feitas a partir dela. A primeira tradução adotada na Igreja Latina, a Vetus Ítala , foi feita diretamente da Septuaginta. Os significados adotados nela, assim como os nomes e palavras gregos empregados (tais como Genesis, Êxodus, Levitico, Números/[Arithmoi], Deuteronômio) e, finalmente, a pronúncia dada ao texto hebreu, passado freqüentemente para o Ítala e dele, às vezes, para a Vulgata, cujos sinais da influência do Vetus Ítala não são raros, especialmente nos Salmos, a tradução da Vulgata sendo meramente o Versus Ítala corrigido por São Jerônimo [7] , de acordo com o texto hexaplar [ver a seguir] da Septuagenária.

 

 

II

ORIGEM DA SEPTUAGINTA

 

A) De acordo com a Tradição

     A Versão Septuaginta é mencionada, pela primeira vez, numa carta de Aristéas a seu irmão Philocrates. O que lemos aqui é substancialmente a origem da Versão. Ptolomeu II Philadelphus, Rei do Egito (nascido cerca de 309/308 a.C., reinou entre 285-246 a.C., ano de sua morte) [8] tinha recentemente estabelecido uma biblioteca valiosa em Alexandria [9] . Ele foi persuadido por Demétrio de Phalarus, bibliotecário chefe, a enriquecê-la com uma cópia do livro sagrado dos judeus.

     Para ganhar simpatia destas pessoas, Ptolomeu, aconselhado por Aristeas, um oficial da guarda real, egípcio de nascimento e pagão de religião, emancipou 100 mil escravos em diferentes partes de seu reinado. Enviou, então, delegados a Jerusalém, entre os quais estava Aristeas, para pedir a Eleazar, o mais alto sacerdote judeu, para oferecer-lhe uma cópia da Lei, assim como de judeus capazes de traduzir para o grego.

     A embaixada teve sucesso: uma cópia da Lei, ricamente ornamentada, e setenta e dois israelitas (seis da cada tribo) [10] foram enviados ao Egito para realizar o desejo do rei. Foram recebidos com grande honra e, durante sete dias, deixaram todos atônitos com a sabedoria por eles demonstrada, respondendo setenta e duas perguntas que lhes foram feitas. Então, foram levados à ilha solitária de Pharos [11] , onde começaram seu trabalho, traduzindo a Lei, ajudando-se e comparando as traduções em proporção à medida que a iam terminando.

     No final de setenta e dois dias, seu trabalho estava completo. A tradução foi lida na presença de sacerdotes judeus, príncipes e pessoas reunidas em Alexandria. Todos reconheceram e elogiaram sua perfeita conformidade com o original hebreu. O rei ficou muito agradecido com o trabalho, que foi levado à biblioteca. Apesar de seu caráter legendário, o relato de Aristeas ganhou crédito. Aristóbulus (170-50 a.C.), numa passagem preservada por Eusébio, diz que "através do esforço de Demétrio de Phalerus, uma completa tradução da legislação judaica foi executada no dias de Ptolomeu".

     A história de Aristeas é repetida quase literalmente por Flávio Josefo [12] (Antiguidades Judaicas, XII, 2) e, substancialmente, com a omissão do nome de Aristeas, por Phílon de Alexandria (De Vita Moysis, II, 6).

     A carta e a estória foram aceitas como genuínas por muitos Padres e escritores eclesiásticos até o início do século XVI de nossa ora. Outros detalhes servem para enfatizar a origem extraordinária dos relatos de Aristeas: "Os setenta e dois tradutores foram inspirados por Deus (Tertuliano, Santo Agostinho e o autor de "Cohoratio ad Graecos"[Justin], dentre outros); durante a tradução eles não consultaram-se uns aos outros, mantiveram-se calados em celas separadas. Mesmo sozinhos, ou em pares, suas traduções, quando comparadas, tinham completa concordância tanto em sentido, quanto em expressões empregadas com relação ao texto original e umas às outras (Cohoratio ad Graecos, Santo Irineu, São Clemente de Alexandria).

     São Jerônimo rejeitou as estórias das celas, considerando-as fabulosas e não verdadeiras ("Praef. in Pentateuchum"; "Adv. Rufinum", II, 25), assim como a inspiração alegada da Septuaginta. Finalmente, os setenta e dois intérpretes traduziram não somente os cinco livros do Pentateuco [13] , mas o Antigo Testamento hebraico inteiro.

     A autenticidade da carta, posta em questão primeiramente por Louis Vivès (1492-1540), professor em Louvain (Ad Santo Agostinho Civ. Dei, XVIII, 42), depois por Jos. Scaliger (d.1609), e especialmente por H. Hody (d. 1705) e Dupin (d. 1719) é agora universalmente negada.

Crítica histórica

  1. A carta de Aristeas é certamente apócrifa. O escritor, que se denomina Aristeas e se diz grego e pagão, mostra em todo seu trabalho que é um pio e zeloso judeu: ele reconhece o Deus dos judeus como o único Deus verdadeiro; declara que Deus é autor da lei Mosaica; é admirador entusiasta do templo de Jerusalém, da terra e povo judeus e de suas leis e homens instruídos e santos;

  2. feito, como ilustrado na carta deve ser considerado fabuloso e legendário, pelo menos em várias partes. Alguns dos detalhes, tais como a intervenção oficial do rei e do mais alto sacerdote judeu, o número de setenta e dois tradutores, os setenta e dois dias que duraram seu trabalhos, as setenta e duas perguntas que eles tiveram que responder, são claramente afirmações arbitrárias; é ainda mais difícil admitir que os judeus de Alexandria adotaram para adoração pública, uma tradução da Lei, feita a pedido de um rei pagão; por último, a verdadeira língua da Versão Septuaginta trai, em alguns momentos, um conhecimento um pouco imperfeito tanto do hebreu quanto da topografia da Palestina e corresponde muito mais a um idioma vulgar da Alexandria. Ainda não é certo que tudo que está contido na carta é legendário e estudiosos perguntam se não há fundamentos históricos sob os detalhes legendários. É mesmo possível – como aparece no caráter peculiar da língua, assim como do que sabemos da origem e história da versão – que o Pentateuco foi traduzido em Alexandria. Parece verdadeiro também que ele data do tempo de Ptolomeu Philadelphus e, portanto, da metade do século terceiro a.C. Se for assim, como é comumente acreditado, a carta de Aristeas foi escrita por volta de 200 a.C., cinqüenta anos após a morte de Philadelphus, tendo em vista aumentar a autoridade da versão grega da lei, teria sido tão facilmente aceita e difundida se fosse fictícia e se o tempo da composição não correspondesse à realidade? Além disso, é possível que Ptolomeu tinha algo a ver com a preparação ou publicação da tradução, embora como e por que não pode ser determinado agora. Foi com o propósito de enriquecer sua biblioteca com o aparato Pseudo-Aristeas? Isto é possível, mas não provado, enquanto, como será demonstrado adiante, podemos muito bem contar com a origem da versão independentemente do rei; e

  3. Os poucos detalhes que têm sido adicionados ao feito de Aristeas, no decorrer dos tempos, não podem ser aceitos, tal como a estória da celas (que São Jerônimo rejeita explicitamente); a inspiração dos tradutores (uma opinião certamente baseada na lenda das celas); o número de tradutores, setenta e dois (ver a seguir); e a asserção que todos os livros hebreus fora traduzidos na mesma época. Aristeas fala da tradução da lei (nomos), da legislação (nomothesia), dos livros do legislador. Essas expressões, especialmente as duas últimas, certamente significam o Pentateuco, exclusivas dos outros livros Antigo Testamento. São Jerônimo (Comment. in Mich) diz; "Josefo escreve e os hebreus nos informam, que apenas os cinco livros de Moisés foram traduzidos por eles (setenta e dois) e dados ao rei Ptolomeu". Além disso, as versões dos variados livros do Antigo Testamento diferem muito em vocabulário, estilo, forma e caráter, às vezes livre e às vezes extremamente literal, que poderiam não ser o trabalho do mesmo tradutor. Contudo, apesar dessas divergências, o nome de "Versão Septuaginta" é dado à coleção completa dos livros do Antigo Testamento na Bíblia Grega, adotada pela Igreja Ocidental.

 

B) Origem segundo a visão comumente aceita

     No que se refere ao Pentateuco, a seguinte visão parece plausível e é agora comumente aceita em suas linhas mais liberais (broad lines): os judeus, nos dois últimos séculos a.C., eram tão numerosos no Egito, especialmente em Alexandria, que numa certa época, formaram dois quintos de toda uma população. Pouco a pouco, a maioria deles deixaram de usar e até mesmo esqueceram grande parte da língua hebraica, correndo o risco de esquecerem suas leis.

     Conseqüentemente, tornou-se comum interpretar a Lei em grego, que era lida em sinagogas e seria até natural que, após algum tempo, alguns homens, zelosos pela Lei, devessem ter empreendido a compilação de uma Tradução Grega do Pentateuco. Isto aconteceu em meados do terceiro século a.C. No que se refere aos outros livros hebraicos – os proféticos e históricos – era natural que os judeus de Alexandria, aproveitando o Pentateuco traduzido em suas reuniões litúrgicas, deveriam desejar ler os livros remanescentes e, posteriormente, deveriam tê-los todos traduzidos para o grego, que havia se tornado sua língua materna; isto seria muito mais possível já que seu conhecimento de hebreu diminuía dia a dia.

     Não é possível determinar precisamente a época em que estas diferentes traduções foram feitas; mas é certo que a Lei, os Profetas e pelo menos parte dos outros livros, ou seja, as hagiografias, existiam na Grécia antes do ano 130 a.C., como aparece no prólogo do Eclesiástico [14] , que não é posterior a esse ano.

     Também é difícil dizer onde as várias traduções foram feitas, uma vez que as datas são escassas. A julgar pelas palavras e expressões egípcias que aparecem na versão, a maioria dos livros devem ter sido traduzidos no Egito, mais provavelmente em Alexandria; [o livro de] Estér, contudo, foi traduzida em Jerusalém (XI, 1).

     Quem eram os tradutores e quantos? Há algum fundamento para o número deles, setenta ou setenta e dois, como dado pelo relato legendário (Brassac-Vigourux, n.105)? Parece impossível decidir definitivamente; os Talmudistas nos dizem que o Pentateuco foi traduzido por cinco intérpretes (Sopherim, c.i.). A História não nos dá detalhes; mas um exame do texto mostra, de maneira geral, que os autores não eram judeus palestinos chamados ao Egito; e diferenças de terminologia, método etc. provam claramente que os tradutores não eram os mesmos para livros diferentes. Também é impossível dizer se o trabalho foi conduzido oficialmente ou meramente por um empreendimento particular, como parece ter sido o caso do Eclesiástico; mas os diferentes livros, quando traduzidos, foram rapidamente reunidos – o autor do Eclesiástico conhecia a coleção – e foram recebidos como oficiais pelos judeus de língua grega.

 

III

HISTÓRIA SUBSEQÜENTE

Revisões

     A versão grega, conhecida como Septuaginta, bem recebida pelos judeus de Alexandria, foi difundida rapidamente pelos países onde o Grego era falado; foi utilizada por diferentes escritores, suplantado o texto original em serviços litúrgicos. Fílon de Alexandria usava-a em seus escritos e considerava os tradutores profetas inspirados. Foi, finalmente, recebida pelos judeus da Palestina e empregada notavelmente por Josefo, o historiador judeu palestino.

     Também sabemos que os escritores do Novo Testamento a utilizaram, extraindo dela a maioria de suas citações; tornou-se o Antigo Testamento da Igreja e foi tão altamente estimada pelos primeiros cristãos que vários escritores e padres a declararam inspirada. Os cristãos apelavam à ela constantemente em suas controvérsias com os judeus, que logo reconheceram suas imperfeições e, finalmente, a rejeitaram em favor do texto hebreu ou traduções mais literais (Áquila, Teodócião).

Correções críticas de Orígenes, Luciano e Hesíquio

     Por conta apenas de sua difusão entre os judeus helenizados e os primeiros cristãos, cópias da Septuaginta foram multiplicadas; e, como poderia se esperar, muitas mudanças, tanto deliberadas quanto involuntárias, foram incorporadas. Houve a necessidade de restaurar o texto, tanto quanto possível à sua pureza original . O que segue é um breve relato das tentativa de correções:

  1. Orígenes reproduziu o texto da Septuaginta na quinta coluna de seu "Hexaplar"; marcando com obeli [**] os textos contidos na Septuaginta que não estavam no texto original. Adicionou, de acordo com a versão de Teodocião, distinguindo com asteriscos e metobeli [***] os textos do original que não estavam na Septuaginta. Adotou, das variantes da versão Grega, os textos que estavam mais próximos do hebraico; e, finalmente, transpôs o texto onde a ordem da Septuaginta não correspondia à ordem em hebraico. Sua revisão, copiada por Panfílio e Eusébio é chamada de "hexaplar", para distinguir da versão anteriormente empregada e que é chamada de "comum", "vulgata", "koine" ou "ante-hexaplar". Essa revisão foi adotada na Palestina;

  2. São Luciano, padre de Antioquia e mártir, publicou, no início do século quarto a.C., uma edição corrigida, de acordo com a versão em hebraico. Esta levou o nome de "koine", edição vulgata e, às vezes, também chamada de "Loukianos", em homenagem a seu autor. No tempo de São Jerônimo, era usada em Constantinopla e Antioquia; e

  3. Finalmente, Hesíquio, um bispo egípcio, publicou mais ou menos na mesma época, uma nova revisão, empregada como principal texto no Egito.

Manuscritos

     Os três mais celebrados manuscritos conhecidos da Septuaginta são o Vaticano ("Codex Vaticanus", século quarto d.C.). o de Alexandria ("Codex Alexandrinus", século quinto d.C., que está no Museu Britânico, em Londres) e o do Sinai ("Codex Sinaiticus", quarto século d.C., encontrado por Tischendorf no convento de Santa Catarina, no Monte Sinai, entre 1844 e 1849. Hoje, parte está em Leipezig e parte em São Petersburgo). estão todos escritos em unciais.

     O "Codex Vaticanus" é o mais puro dos três; em geral, oferece mais do texto antigo, enquanto o "Codex Alexandrinus" contém muito do texto "hexaplar" e é alterado de acordo com o texto Massorético (o "Codex Vaticanus" é referido pela letra "B"; o "Codex Alexandrinus" pela letra "A" e, o "Código Sinaiticus", pela primeira letra do alfabeto hebreu, Aleph, ou pela letra "S").

     A Biblioteque Nationale, em Paris, também possui um importante palimpsesto manuscrito da Septuaginta, o "Codex Ephraemirescriptus" (designado pela letra "C"), e dois manuscritos de menor valor (64 e 114), em cursivos, um pertencente ao século 10º ou 11º e, o outro, ao 13º (Bacuez e Vigouroux, 12o. ed., n.109).

Edições Impressas

     Todas as edições impressas da Septuaginta derivam das revisões mencionadas acima.

  1. A editio princeps é a Complutensian ou o de Alcalá. Foi realizada a partir do texto "hexaplar" de Origenes; impressa entre 1514-18, não foi publicada até aparecer no "Poliglota", do Cardeal Ximenes, em 1520;

  2. A edição Aldina (iniciada por Aldus Manucius) apareceu em Veneza em 1518. O texto é mais puro do que a edição Complutensian , e mais próximo do Codex B [o "Codex Vaticanus"]. O editor diz que conferiu manuscritos antigos, mas não os especifica. Foi reimpressa várias vezes;

  3. A edição mais importante é a Romana ou Sixtina, que reproduz o "Codex Vaticanus" quase exclusivamente. Foi publicada sob a direção do Cardeal Caraffa, com a ajuda de vários sábios, em 1586, pela autoridade do Papa Sixtus V, para auxiliar os revisores que estavam preparando a edição Vulgata Latina solicitada pelo Concílio de Trento. Tornou-se o textus receptus do Antigo Testamento Grego e teve muitas edições, tal como a de Holmes e Pearsons (Oxford 1798-1827), as sete edições de Tischendorf, que apareceram em Leipzig entre 1850 e 1887 (as últimas duas publicadas após a morte do autor e revisada por Nestlé), as quatro edições de Swete (Cambridge, 1887-95, 1901, 1909) etc.;

  4. A edição de Grabe foi publicada em Oxford, de 1707 a 1720, reproduzindo, imperfeitamente, o "Codex Alexandrinus" de Lonres. Para mais informações sobre edições parciais, ver Vigoroux, "Dict. De la Bible", 1643 sqq.

 

IV. VALOR CRÍTICO E IDIOMA

     A Versão Septuaginta, enquanto provedora da forma e substância do verdadeiro sentido dos livros sagrados, difere, entretanto, consideravelmente do no nosso texto hebreu atual.

     As discrepâncias, contudo, não são de grande importância e são apenas questão de interpretação. Elas podem, então, ser classificadas:

  1. algumas são resultados das diferentes revisões em hebraico que os tradutores tinham à sua disposição, em relação àquelas que conhecemos como Massoréticos [15] ;

  2. às vezes, os textos variavam, outras vezes eram idênticos, mas eram lidos em ordem diferente;

  3. outras discrepâncias são devidas aos tradutores, pessoalmente, para não mencionar a influência exercida em seus trabalhos por seus métodos de interpretação, as dificuldades inerentes ao trabalho, seu maior ou menor conhecimento de grego ou hebraico. Por vezes, traduziam diferentemente dos [textos] massoréticos, porque liam-no diferentemente; isso era natural, uma vez que o hebraico era escrito em caracteres quadrados e certas consoantes eram muito similares em suas formas, sendo fácil confundi-los ocasionalmente e, então, realizar uma tradução errônea;

  4. somando-se a isso, o texto em hebraico era escrito sem espaçamento entre as palavras, podendo-se facilmente cometer enganos na separação das palavras;

  5. por último, como o texto em hebraico à disposição dos tradutores não tinha vogais, eles poderiam utilizar-se de vogais diferentes das usadas pelos [textos] massoréticos.

     Mais uma vez, não devemos pensar que, atualmente, temos o texto em Grego exatamente como foi escrito pelos tradutores. As transcrições freqüentes durante os primeiros séculos de nossa era, assim como as correções e edições de Orígenes [16] , Luciano e Hesíquio prejudicaram a pureza do texto: voluntária ou involuntariamente, os copistas permitiram muitas corrupções textuais, transposições, adições e omissões a partir do texto primitivo da Septuaginta. Em particular, podemos notar a adição de passagens paralelas, notas explanatórias ou traduções duplas causadas por notas marginais. Para maiores informações, consultar Dict. de la Bible, art.cit., and Swete, "Uma Introdução ao Antigo Testamento em Grego".

Idioma

     Todos admitem que a Versão Septuaginta foi feita em grego popular, o "koine dislektos". Mas o grego do Antigo Testamento era um idioma especial? Muitas autoridades afirmam que sim, embora discordem como sendo seu caráter real.

     O "Dict. de la Bible", s.v. Grec biblique , afirma que era "grego ‘hebraicizado’, falado pela comunidade judaica em Alexandria", um grego popular de Alexandria "com uma extensa mistura de hebraicismos". O mesmo dicionário, s.v. Septante, menciona a mais recente opinião de Deissman, de que o grego da Septuaginta é meramente o grego vernacular, o puro "koine" da época. Deissman baseia sua teoria na semelhança da língua da Septuaginta e a dos papiros e das inscrições da mesma época. Ele acredita que as peculiaridades sintáticas da Septuaginta, que à primeira vista parecem favorecer a teoria de uma língua especial, a do grego hebraicizado, são suficientemente explicadas pelo fato de que a Septuaginta é uma tradução grega de livros hebraicos.

 

The Catholic Encyclopedia, Volume XIII
Copyright © 1912 by Robert Appleton Company
Online Edition Copyright © 1999 by Kevin Knight
Nihil Obstat, February 1, 1912. Remy Lafort, D.D., Censor
Imprimatur. +John Cardinal Farley, Archbishop of New York

 

Notas:

[*] Este artigo é um verbete da "The Catholic Encyclopedia".

[**] Obeli é o plural da palavra latina obelu; em português, óbelo. De acordo com o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (2ª edição, 1986), óbelo é um termo utilizado em paleografia, indicando um "sinal em forma de travessão, usado para indicar lições falsas, repetições, atribuições erradas, etc., ou precedido ou seguido pela diple (sinal em forma de "V" deitado, com a abertura para a esquerda, que se usa para distinguir citações da Bíblia e de outros textos importantes; é semelhante ao antilambda, sinal em forma de lambda deitado – como que um deitado "Y" com a abertura para a direita – usado para indicar citação), para separar períodos nos textos dramáticos e indicar que à estrofe se segue uma antístrofe". (Nota do Editor do site Inter-Religo)

[***] Outro termo utilizado em paleografia. (Nota do Editor do site Inter-Religo)

[1] A Versão Septuaginta é também conhecida como "Versão dos Setenta" (LXX, que representa o número setenta em algarismos romanos). Por ser a base das bíblias católicas, explica a diferença existente entre elas e as hebraicas e protestantes. O Antigo Testamento nas bíblias católicas é composto por 46 livros. Os judeus (assim como os protestantes) reconhecem apenas os livros escritos em hebraico, totalizando 24 (1Samuel e 2Samuel, 1Reis e 2Reis, Esdras-Neemias, por exemplo, são reunidos e contados apenas como um livro para cada par, por exemplo). Os 7 livros restantes, escritos em grego, são reconhecidos apenas por cristãos católicos, conforme a tradição da Igreja primitiva, confirmada pelo Concílio de Trento. Mas porque essa diferença? Após a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, os primeiros textos cristãos começaram a ser escritos (cartas apostólicas, evangelhos). Para os cristãos, principalmente para aqueles que vinham do judaísmo, esses textos eram considerados com continuação dos livros sagrados judaicos. Os judeus não aceitaram que textos cristãos fosses incorporados aos textos judaicos, pois não reconheciam (e ainda não reconhecem) Jesus Cristo como o Messias esperado. No ano 100 d.C., as autoridades religiosas judaicas reuniram-se no Sínodo de Jâmnia (ao sul da Palestina), a fim de estabelecerem critérios que, para eles, deveriam caracterizar os livros sagrados ou inspirados por Deus. Os critérios considerados foram:

  • O livro sagrado não pode ser escrito fora da terra de Israel;

  • Não ter ser escrito em língua aramaica ou grega, mas somente em hebraico;

  • Não ter sido escrito depois de Esdras (cerca de 458-428 a.C.); e

  • Não estar em contradição com a Torá ou a Lei de Moisés.

     Os 46 livros do Antigo Testamento são (os nomes dos livros em negrito não são reconhecidos, pelos judeus, como livros inspirados e, portanto, não fazem parte de suas escrituras sagradas):

1. Gênesis (Gn)

13. Crônicas 1 (1Cr)

25. Eclesiastes* (Ecl)

37. Amós (Am)

2. Êxodo (Ex)

14. Crônicas 2 (2Cr)

26. Cântico (Ct)

38. Abidas (Ab)

3. Levítico (Lv)

15. Esdras (Esd)

27. Sabedoria (Sb)

39. Jonas (Jn)

4. Números (Nm)

16. Neemias (Ne)

28. Eclesiástico** (Eclo)

40. Miquéias (Mq)

5. Deuteronômio (Dt)

17. Tobias (Tb)

29. Isaías (Is)

41. Naum (Na)

6. Josué (Js)

18. Judite (Jt)

30. Jeremias (Jr)

42. Habacuc (Hab)

7. Juízes (Jz)

19. Ester*** (Est)

31. Lamentações (Lm)

43. Sofonias (Sf)

8. Rute (Rt)

20. Macabeus 1 (1Mc)

32. Baruc (Br)****

44. Ageu (Ag)

9. Samuel 1 (1Sm)

21. Macabeus 2 (2Mc)

33. Ezequiel (Ez)

45. Zacarias (Zc)

10. Samuel 2 (2Sm)

22. Jó (Jó)

34. Daniel (Dn)****

46. Malaquias (Ml)

11. Reis 1 (1Rs)

23. Salmos (Sl)

35. Oséias (Os)

12. Reis 2 (2Rs)

24. Provérbios (Pr)

36. Joel (Jl)

* O livro de Eclesiastes também é conhecido pelo nome de "Coélet".

** O livro de Eclesiástico é conhecido, também, com o título de "Sirácida".

*** Algumas passagens do livro de Ester, por estarem escritas em grego, não são reconhecidas pelos judeus. As várias versões da Bíblia editam esse livro de diversos modos. Assim, a Bíblia de Jerusalém agrega, em um único texto, as duas versões – hebraica e grega –, diferenciando-as; a Bíblia Ecumênica (também conhecida por TEB, preparada pela Sociedade Bíblica Francesa) optou pela apresentação desse livro em duas versões: o texto hebraico e o texto grego, separadamente.

**** Inclusive o capítulo 6 de Baruc, também conhecido como "Carta de Jeremias", conservada à parte na Bíblia grega e acrescentada ao livro de Baruc como seu 6º capítulo. A Bíblia grega coloca-o entre os livros de Jeremias e as Lamentações (também de Jeremias); a Vulgata, depois das Lamentações.

***** Da mesma forma que o livro de Ester, trechos do livro do profeta Daniel não são reconhecidos pelos judeus por estarem escrito em grego (Dn 3,24-90;13ss.). (Nota do Editor do site Inter-Religo)

[2] A palavra "massorah" ou "massoreth" significa "tradição" ou, ainda, "transmitir", "legar", em hebraico. A palavra massoreta significa "guardiões da tradição" (em hebraico, baalei hamasorah). Por sua vez, os "massoretas" eram rabinos palestinos, do século IX-X d.C., que conservaram com cuidado filológico o texto bíblico, na forma que é atualmente utilizado pelo judaísmo. Mas o que significa "cuidado filológico"? O alfabeto hebraico é composto por 22 letras, todas consoantes. Não possui qualquer sinal de vocalização (vogais), pois os sons vocálicos são supridos pelo leitor durante a leitura. Na antigüidade, isso dava origem a constantes enganos, porque haviam palavras com as mesmas consoantes, porém, com acepções diferentes em função das diversas possibilidades de vogais escolhidas. Por isso, a pronúncia exata da palavra dependia da habilidade do leitor, levando em conta seu conhecimento, o contexto e a tradição. Após o século VII-VIII d.C., foi inventado um sistema de sinais com pequenos símbolos (colocados sob, sobre ou no interior das consoantes), indicando as vogais corretas. Dessa forma, foi possível fixar não só a pronúncia, como também o sentido das palavras. O Talmude de Jerusalém (concluído na primeira metade do século V d.C.) e o Talmude da Babilônia (concluído no final do século VIII d.C.) não mencionam a existência de vogais ao texto consonantal. Lembremo-nos que, após a destruição de Jerusalém e do Templo pelo general romano Tito (filho do Imperador Vespasiano) em 70 d.C., os judeus dispersaram-se por todo o mundo. Aos poucos, o hebraico foi tornando-se, cada vez mais, uma língua morta. O perigo da verdadeira pronúncia e leitura dos textos sagrados perder-se crescia cada vez mais. Entretanto, é importante sublinhar que, desde o século I a.C., copistas e revisores hebreus já eram treinados para copiarem e conservarem, de maneira exata, os textos religiosos. Muitos esforços foram envidados antes da invenção das vogais: algumas consoantes, por exemplo, dadas suas características, pontuavam o texto, procurando dar-lhe sentido: por isso, esses copistas eram chamados Sopherim (palavra essa derivada de outra palavra hebraica que significa "contar", já que o Talmude diz que "eles contaram todas as letras contidas na Torá – Kiddushin, 30a). Por isso, as palavras e letras de cada um dos vinte e quatro livros da Bíblia Hebraica eram contadas. Foram estabelecidas diversas regras quanto à pronúncia, acentos e pausas no texto escrito e falado, além da especificação da forma de cada parágrafo. Os textos bíblicos em hebraico do Antigo Testamento, posteriores ao século VII d.C., são chamados "massoréticos", porque contém os sinais vocálicos, padronizados a partir do sistema denomina "Tiberiano" (utilizado até nossos dias), em contraposição ao sistema de vocalização denominado "Babilônico". A ilustração a seguir apresenta a cópia de uma página de um manuscrito do Pentateuco, realizada em 1290 por Moses de Ebermannstadt, na Bavária. O texto está escrito em hebraico, com uma tradução em aramaico, intercalada entre as linhas. Da Alemanha, esse manuscrito foi levado para o Egito, onde foi adquirido pela expedição Carsten Niebhur (1761-1762), para a Royal Library. (Nota do Editor do site Inter-Religo)

[3] Ver nota nº 2.

[4] Ver nota nº 2.

[5] Os "Padres da Igreja" é uma expressão que designa diversos pensadores cristãos ocidentais e orientais, que viveram durante os primeiros oito séculos da era cristã. Tais pensadores (filósofos, leigos, religiosos ou sacerdotes) estabeleceram, durante esse período, a essência da fé cristã, salvaguardando-a de várias heresias, desvios e influências externas aos ensinamentos transmitidos para e pelos primeiros apóstolos e comunidades cristãs. Os Padres são agrupados em dois conjuntos: Padres gregos e Padres latinos. Os Padres gregos da Igreja são (ordenados segundo o ano de sua morte): São Clemente Romano (97), Santo Inácio de Antioquia (107), São Policarpo (155), São Justino (165), São Melitão (180), Atenágoras (século II), Hermes (século II), Taciano (século II), São Teófilo de Antioquia (século II), São Clemente de Alexandria (215), Santo Hipólito (236), Orígenes (254), São Dionisio, o Grande (264), São Firmiliano (268), São Gregorio Taumaturgo (268), Santo Arquelao (282), São Metódio de Olimpo (311), Eusébio de Cesaréia (340), São Júlio I (352), São Cesáreo de Nazianzo (369), São Serapião (370), Santo Atanásio (373), São Basilio Magno (379), São Cirilo de Jerusalém (386), São Gregório de Nazianzo (390), São Macário (390), Diodoro de Tarso (392), São Gregório de Nissa (395), Dídimo, o Cego (398), Afraates (siglo IV), Santo Eustácio de Antioquia (século IV), Santo Epifânio (403), São João Crisóstomo (407), Teodoro de Mopsuestia (428), São Nilo, o Velho (430), São Cirilo de Alexandria (444), São Proclo (446), Santo Isidoro de Pelúsio (450), Teodoreto de Ciro (458), Genádio I, de Constantinopla (século V), Pseudo Dionísio Areopagita (século VI), São Leôncio de Bizâncio (século VI), São Sofrônio (638), São João Clímaco (649), São Máximo, o Confessor (662), Santo Atanasio, o sinaíta (700), São Germano (732), Santo André de Creta (740) e São João Damasceno (749), último dos padres do Oriente. Os Padres latinos da Igreja são (ordenados segundo ao ano de sua morte): Minucio Félix (século II), Santo Ireneu de Lyon (202), Tertuliano (222), São Cornélio (253), Novaciano (257), São Cipriano de Cartago (258), São Dionísio (268), São Pânfilo (309), Lactâncio (323), Santo Arnóbio (330), Santo Hilário de Poitiers (367), São Dâmaso (384), São Paciano (390), São Gregório de Elvira (392), Santo Ambrósio de Milão (397), São Sirício (399), Febádio (século IV), Mario Victorino (século IV), Santo Optato (século IV), Rufino de Aquileya (410), Santo Inocente (417), São Jerônimo (420), Santo Agostinho de Hipona (430), São Paulino de Nola (431), São Celestino I (432), São João Cassiano (435), Santo Eucherio de Lyon (450), São Pedro Crisólogo (450), São Vicente de Lerins (450), Mário Mercator (451), São Leão Magno (461), Salviano (século V), Santo Enódio (521), São Fulgêncio (533), São Cesáreo de Arlés (542), São Bento de Núrsia (550), São Gregório Magno (604) e Santo Isidoro de Sevilla (636), último dos padres latinos. Alguns religiosos, como o Papa Pio XII, consideravam São Bernardo de Claraval (1153) como o último dos Padres latinos (Nota do Editor do Site Inter-Religo)

[6] Em 1054 d.C., o Patriarca Miguel Cerulário, de Constantinopla (atual Istambul, na Turquia) rejeitou, definitivamente, a supremacia do bispo de Roma (o Santo Padre, o Papa, para os católicos), quando passou a considerar-se, a si próprio, como chefe supremo da Igreja no Império Bizantino. Tal decisão deu origem à Igreja cismática Grega, também denominada Igreja Ortodoxa. Esse fato também é conhecido como "Cisma do Oriente". No entanto, o Cisma foi sendo gestado durante séculos: pode-se datar o ano de 330 d.C. como o início de um movimento de separação política e cultural entre o Império Romano do Ocidente e do Oriente: o Imperador Constantino funda, no lugar da colônia grega de Bizâncio, Constantinopla, com o primeiro nome de "Nova Roma", transferindo o governo do Império para essa cidade. A divisão administrativa do Império ocorreu em 395 d.C., por obra do Imperador Teodósio. É importante lembrar que, em 1204, durante a IV Cruzada (ocorrida entre 1202 e 1204), os exércitos cristãos católicos saquearam a ortodoxa Constantinopla, alimentando durante séculos (que ainda pode ser comprovada, atualmente) grande hostilidade. (Nota do Editor do site do Inter-Religo)

[7] São Jerônimo (340/350 (?) - 420), doutor da Igreja, foi o tradutor da Bíblia Sagrada (Antigo e Novo Testamentos) para o Latim, versão essa conhecida como "Vulgata". (Nota do Editor do site do Inter-Religo)

[8] É importante lembrar que, após a morte de Alexandre Magno (ocorrida em 323 a.C.), seu império foi dividido entre seus generais. O Egito passou a ser governado, então, por gregos, durante três séculos. Esse período ficou conhecido como o da "Dinastia Ptolomaica". Sob essa dinastia, a língua oficial do Egito passou a ser o grego. Foi tornado província romana em 30 a.C. por Otávio, sobrinho-neto de Júlio César nomeado imperador em 27 a.C. pelo Senado Romano, após a Batalha de Áccio, em 31 a.C., quando venceu, no mar, as forças de Marco Antônio e Cleópatra. Ao tomar Alexandria, Marco Antônio e Cleópatra suicidaram-se. (Nota do Editor do site Inter-Religo)

[9] Essa biblioteca é a famosa Biblioteca de Alexandria, a maior e mais famosa da antigüidade. A cidade de Alexandria foi fundada por Alexandre, o Grande, e construída entre 332 e 331 a.C. pelo arquiteto grego Dinocrates. A cidade floresceu como importante metrópole do mundo antigo, em seus aspectos econômico, cultural e intelectual. A biblioteca, por sua vez, foi construída em 290 a.C., por Ptolomeu I. Acredita-se que o número de livros guardados na biblioteca variou ente 500 mil e 600 mil. Zenodotus foi seu primeiro bibliotecário, sucedendo-lhe Calimachus (que elaborou um catálogo denominado Pinakes), Eratóstenes, Apolônius e Aristófanes, dentre outros. Após o incêndio de Alexandria, que afetou consideravelmente sua coleção de livros, outros acabaram por destruí-la completamente ao longo do tempo: os imperadores Aureliano (em 273 d.C.) e Teodósio (389 d.C., com a destruição do templo de Serápis). O ataque final foi desfechado pelos árabes, em 640 d.C. A ilustrações a seguir mostram representações artísticas de como a Biblioteca de Alexandria deve ter sido. (Nota do Editor do site Inter-Religo)

[10] A origem das 12 tribos israelitas pode ser lida em Gn 49, quando Jacó abençoa cada um de seus filhos: começando por Rúben (seu primogênito), Simeão, Levi, Judá, Zabulon, Isaacar, Dã, Gad, Aser, Neftali, José (representado, posteriormente, por seus filhos Efraim e Manassés), Benjamim. Mais informações podem ser obtidas em Jos 13–22. (Nota do Editor do site Inter-Religo)

[11] A ilha de Pharos é onde localizava-se o famoso Farol de Alexandria, uma das sete maravilhas do mundo antigo. Em sua época, foi a mais alta estrutura construída, com cerca de 135 metros de altura. Foi construído em torno de 270 a.C. pelo arquiteto grego Sostratus de Knidos, a pedido de Ptolomeu II, rei do Egito. O farol guiou navegadores até o porto de Alexandria por cerca de 1,5 mil anos. Sua luz podia ser vista, inclusive, durante o dia; provavelmente, com a utilização de espelhos e da luz solar. Há relatos que atestam que sua luz podia ser vista cerca de 50 quilômetros. Aliás, essa poderia ser uma bonita metáfora, já que os 72 sábios chamados por Ptolomeu II, para traduzir o Antigo Testamento para o grego, ficaram justamente nessa ilha. Um terremoto, ocorrido no século XIV d.C. (mais precisamente, em 1326) derrubou-o, jogando-o ao mar. Suas ruínas foram redescobertas em 1996. A imagem abaixo é uma representação artística de como teria sido o antigo Farol de Alexandria. (N. do E.)

[12] Flávio Josefo (Flavius Josephus em latim e, em hebraico, Iossef ben Matitiahu ha-Cohen), nasceu cerca de 37/38 d.C., falecendo por volta dos anos 100/103 d.C. Foi historiador, político e soldado judeus. Suas obras são: Guerra Judaica (entre 79 d.c. e 81 d.C.), Antigüidades Judaicas (93 d.C.), Contra Apião (95 d.C.) e Autobiografia (escrita após o ano de 95 d.C.). É um personagem histórico bastante polêmico, pois acusado de traidor de seu povo durante as revoltas que culminaram na destruição de Jerusalém e do Templo em 70 d.C., por Vespasiano e Tito, dando origem à Diáspora Judaica que perdura até nossos dias, apesar da criação do Estado de Israel no final da primeira metade do século XX (1948). Nasceu em Jerusalém, de família sacerdotal. Entre os 16 e 19 anos de idade, vive no deserto com um asceta essênio de nome Bano. Decide-se, porém, pela espiritualidade farisaica, autodenominando-se um "fariseu moderado" ao final da vida, O site da "Revista Morashá" faz a seguinte descrição de Iossef ou Flávio Josefo: "Em 64 d.C. [com cerca de 26 ou 27 anos de idade], Josefo foi a Roma, em missão semi-oficial, para libertar sacerdotes judeus presos por Nero. Esta viagem que Josefo fez a Roma desempenhou um papel importante na sua vida. Ele ficou fascinado pela potência romana e convencido de que os romanos eram invencíveis. Ao regressar, tentou em vão dissuadir seus compatriotas de empreender a guerra contra os romanos. Não obstante, quando irrompeu a revolta, ele aceitou organizar a resistência judaica na Galiléia. Em conseqüência, quando os judeus da Palestina se revoltaram e reconquistaram temporariamente a independência em 66 d.C., foi considerado especialista em questões políticas e mandado à Galiléia, como representante do governo revolucionário. Foi designado pelo San’hedrin governador militar da Galiléia, assumindo o supremo comando militar. Desaveio-se violentamente com os extremistas patrióticos, acusado de tendência à contemporização. Em julho de 67 d.C., a guerra entre judeus e romanos já durava 14 meses. Depois de 47 dias de cerco, as tropas de Vespasiano conseguem tomar e destruir Jotápata, uma praça forte na Galiléia. Josefo, com 30 anos de idade, defensor da cidade e chefe dos revoltosos da Galiléia, refugia-se numa cisterna profunda junto com 40 companheiros. O esconderijo é descoberto. Vespasiano convida Josefo a se render, prometendo-lhe que sua vida será salva. Diante de seus companheiros, aceitar tal proposta seria uma traição: todos prefeririam morrer a se entregar. Josefo dissuadiu-os do suicídio e propôs estrangularem-se reciprocamente segundo uma ordem determinada pela sorte. Restaram vivos somente ele e um companheiro, como ele mesmo tenta explicar, constrangido, em Guerra III, 387-391: ‘Não sei se deveríamos dizer que por efeito do acaso ou da Providência Divina’. Teria havido um truque ao tirar a sorte? Somente ele sobrevive. Josefo se entrega a Vespasiano e prediz que ele ostentaria em breve a púrpura imperial [entre 67 d.C. e 69 d.C., Flávio Josefo permanece prisioneiro em Cesaréia, enquanto Vespasiano – ainda não feito imperador – continua a conquista da Galiléia); quando isto se confirmou, foi liberto, como recompensa por sua previsão. O ex-prisioneiro passou para o lado dos vencedores. Terminada a guerra, tornou-se cidadão romano. De acordo com o costume local, adotou o nome de família de seu protetor, Flávio, de onde resultou o cognome pelo qual ficou conhecido na história e na literatura: Flávio Josefo. A partir daí, tornou-se caudilho romano; depois do esmagamento da revolta, foi contemplado com algumas propriedades confiscadas na Judéia, mas viveu em Roma o resto da vida. Rico e considerado, de agora em diante passaria dias felizes na capital imperial. Ao que tudo indica, depois de ir com o imperador a Alexandria, retornou à guerra da Palestina, juntamente com Tito. Testemunhou o cerco e a queda de Jerusalém, acompanhando o vencedor até Roma. Fixou-se na capital do Império, onde sob o patrocínio de Vespasiano, Tito e Domiciano, escreveu a maior parte de seus trabalhos, dos quais restam quatro. É difícil determinar com precisão o papel que teve nesses acontecimentos, pois a única fonte disponível são seus próprios escritos, nos quais tentou, simultaneamente, demonstrar sua integridade como líder patriótico e sua devoção à causa de Roma. Aos olhos dos que o acusavam de traição, Josefo quis justificar sua passagem para o campo romano e apresentar sua explicação sobre a guerra judaica. Os judeus destruíram-se a si mesmos por causa de suas divisões sectárias. Deus os castigou e deu aos romanos uma força irresistível. Este é o tema de ‘A guerra dos Judeus’ cuja edição aramaica desapareceu. A versão grega, ampliada, surgiu entre 76 d.C. e 79 d.C. Josefo relatou os acontecimentos de que foi testemunha; esclareceu-os, porém, remontando ao passado até a revolta dos Macabeus, no século II a.C. Não é por acaso que o seu primeiro livro é ‘A Guerra Judaica’. Além de relatar os acontecimentos em que se viu envolvido e cuja decisão lhe parecia, acertadamente, fazer história na vida de seu povo, tratou-se, para ele, de justificar sua própria atuação, que era alvo de violentas acusações de parte dos zelotas e outras correntes judaicas. Assim, não são de admirar o tom polêmico, os exageros laudatórios e as deformações subjetivas dessa obra que, de outro modo, constitui um documento vivo e compreensivo da luta, uma das poucas fontes sobre as particularidades de seu desenvolvimento e da derradeira resistência de Jerusalém ao gládio romano. Josefo a compôs originalmente em aramaico, sobretudo para os judeus da Babilônia; encorajado a traduzi-lo para o grego, ele próprio o fez com o auxílio de estilistas helênicos, e foi esta versão que chegou até nós. A seguir viu-se instado a expandir o relato numa história do seu povo, desde o começo até o seu tempo. Daí surgiram as Antigüidades Judaicas, em vinte livros. Obra muito desigual na matéria que apresenta, suas narrativas fabulosas, contradições e erros mesclam-se com dados preciosos, que denotam conhecimentos aprofundados da história e das tradições judaicas e que a arqueologia moderna vem comprovando de maneira às vezes surpreendente. Ainda hoje ela é não só um repositório literário, um clássico da historiografia antiga, como um dos principais anais do passado de Israel. A opção política de Josefo não significou abandono de suas convicções religiosas judaicas. De fato, ele sofria muito por causa da ignorância e do desprezo que o mundo greco-romano alimentava em relação aos judeus e à Bíblia. Por isso, esforçou-se para tornar conhecidas entre os gregos tradições igualmente veneráveis e mais antigas do que as deles nas suas Antigüidades Judaicas (ou História Antiga dos Judeus), que apareceram em 93 d.C. ou 94 d.C.". Para conferir o texto completo, acesse o endereço http://www.morasha.com.br/conteudo/ed34/flavio.htm (Nota do Editor do site Inter-Religo)

[13] Em grego, Pentateuco significa "conjunto de cinco". Compreende os cinco primeiros livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Em hebraico, o Pentateuco é denominado Torá (forma aportuguesada de Torah). (Nota do Editor do site Inter-Religo)

[14] O Livro de Eclesiástico é conhecido, também, pelo nome de "Sirácida", pois é o único, em todo o Antigo Testamento, cujo autor é conhecido: Jesus, filho de Sirac (em hebraico, ben Sira). Viveu cerca de 200 a.C. em Jerusalém e sua obra remonta a cerca de 180 a.C. O texto chegou até nós pela tradução que seu neto fez para a língua grega, em 132 a.C. O título "Eclesiástico" significa "livro da Igreja", "livro da assembléia". Segundo a Bíblia – Tradução Ecumênica (TEB), apesar do livro não constar do cânon (lista oficial) hebraico, "o Sirácida será um dos autores preferidos do judaísmo: muitas vezes citado no Talmud e até entre os autores da Idade Média, sua obra deve ser posta em paralelo com um tratado fundamental da literatura judaica, os Ensinamentos dos Pais (Pirqê Abôt). Segundo a Bíblia de Jerusalém, "cerca de dois terços deste texto foram encontrados em 1896 nos fragmentos de vários manuscritos da idade Média provenientes de uma velha sinagoga do Cairo. Mais recentemente, pequenos fragmentos foram descobertos numa gruta de Qumrã, e, em 1964, achou-se em Massada um longo texto que contém 39, 27 – 44, 17 numa escrita que data do começo do século I a.C. (Nota do Editor do site Inter-Religo)

[15] Ver nota nº 2.

[16] Orígenes (cerca de 185 d.C. – 254 d.C.) é considerado como um dos maiores pensadores e exegetas cristãos em dois mil anos de cristianismo. Era egípcio copta, nascido em Alexandria. Seu pai, cristão, foi martirizado em uma arena durante a perseguição promovida por Sétimo Severo. Adotou, como nenhum outro, as interpretações alegóricas e anagógicas das Sagradas Escrituras. Segundo o "Catecismo da Igreja Católica", o sentido alegórico das Escrituras deve ser entendido como a aquisição de "uma compreensão mais profunda dos acontecimentos reconhecendo a significação deles em Cristo; assim, a travessia do Mar Vermelho é um sinas da vitória de Cristo, e também do Batismo". Já o sentido anagógico é "ver realidades e acontecimentos na sua significação eterna, conduzindo-nos (em grego: "anagoge") para a nossa Pátria. Assim, a Igreja na terra é sina da Jerusalém celeste". Há, ainda, mais dois sentidos que podem ser utilizados na interpretação dos livros bíblicos: o literal (que compreende exatamente o que está escrito, devendo-se utilizar diversas regras exegéticas para a correta leitura das palavras, tal como fez Santo Agostinho em sua obra "A Doutrina Cristã") e o moral. Por isso, um dístico medieval resume-os da seguinte forma: "A letra ensina o que aconteceu; a alegoria, o que deves crer; a mora, o que deves fazer; a anagogia, para onde deves caminhar (Littera gesta docet, quid credas allegoria, Moralis quid agas, quo tendas anagogia)". Os trechos sobre os sentidos possíveis de serem utilizados para a interpretação das Sagradas Escrituras foram retirados de: "Catecismo da Igreja Católica". São Paulo. SP. Editora Vozes e Edições Loyola. 1993. Edição de Bolso. Página 42.

 

Traduzido do inglês por: Ana Trivellato

Editor: Antonio Carlos Pinheiro dos Santos

Web-designer: Ricardo André da Silva

 

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