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Pode um cientista crer em Deus?
Por: Dr. Warren Weaver

Fui criado num lar religioso.  Não só ía à escola dominical e a igreja, mas também era levado nas noites de quarta-feira às reuniões para exercícios espirituais. Uma parte da minha mente e do meu coração aceitava tudo aquilo. Mas, desde a idade de sete anos, eu sabia que desejava ser cientista. Enquanto crescia e estudava as grandes leis genéricas da ciência, aceitava sem reservas a validade das teorias científicas confirmadas pela experimentação.
Como um malabarista, conservava essas duas bolas brilhantes no ar, uma de cada vez. A maior parte do tempo eu pensava em ciência em certas ocasiões eu reagia a religião com profunda emoção e alegria. Só quando já me aproximava dos 30 anos de idade comecei a encarar seriamente a questão: são minhas idéias lógicas sobre a ciência compatíveis com minhas convicções sentimentais sobre religião?
Tenho meditado muito sobre esta questão, e estou completamente convencido de que a ciência e a religião não são inimigas. Acredito que a feliz compatibilidade entre a ciência e a religião se consegue da mesma maneira por que se obtém êxito no casamento - cada cônjuge dedicando tempo e atenção a aprender bastante sobre o outro para compreender o seu ponto de vista e cada um respeitando o outro:
Devemos começar por entender o que é ciência. Dito da maneira mais simples, é a atividade através da qual o homem obtém compreensão e domínio da natureza. O cientista observa e experimenta. Concebe teorias e as põe à prova, em seguida despreza as errôneas, que não conferem com os fatos observáveis, e trabalha para aperfeiçoar as boas.
A ciência é muito boa para responder a perguntas: como se faz isto? Como podemos aprender a controlá-lo? Como se verifica a fertilização de uma célula? Que faz o avião voar? A que distância de nós estão as estrelas? Mas se perguntarmos por que as coisas acontecem como acontecem, a ciência emudece. Todo cientista, creio, conhece a lei de Newton sobre como se comporta a gravidade, mas nenhum tem a mínima idéia de por que a gravidade se comporta dessa forma.
Aqui está uma distinção extremamente importante entre ciência e religião. Esta, ao contrário daquela, interessa-se principalmente pelo porquê. Por que tem de haver dor e pesar? Por que—oh, por que - nascem algumas  crianças com deformidades físicas e mentalmente retardadas? Que significa a vida e qual a sua finalidade? Por que devo ser sincero, honesto e generoso? Que diferença isso faz - que diferença faz qualquer coisa?
Além disso, enquanto a ciência está sempre tentando analisar como se comportam as coisas, os animais e as pessoas, ela não se interessa em indagar qual o comportamento bom e qual o mau. Deixa essas perguntas para a filosofia, a ética e a religião. Mas para levar uma existência completa e responsável, o ser humano tem de manter em equilíbrio os interesses e as relações de todas as fontes de poder suscetíveis de inspirar, elevar e orientar a sua vida: Arte, Literatura, Poesia, Música, Filosofia, Ciência . . . e Religião.
Tudo isso soa muito bem, poderá você dizer. Mas não estão os fatos científicos que se ensinam na escola leiga em contradição com o que ensina a religião? A ciência não destrói a fé religiosa ?
Sim - se você insistir no tipo de religião inflexível, antigo e fundamentalista, que se atém á exatidão e á verdade absoluta de cada frase da Bíblia, e – importantíssimo - se você acredita que a religião é um assunto estático e fechado, incapaz de progredir e de modificar suas idéias á luz dos conhecimentos modernos. Se essa ê a sua crença, então eu não vejo de que maneira você poderá viver racionalmente num mundo científico e moderno.
Acredito que a Bíblia é a mais pura revelação que temos da natureza e da bondade de Deus. Mas parece-me natural—de fato, inevitável - que essa crônica humana apresente um pouco da fragilidade humana juntamente com muita verdade divina; e me parece inteiramente desnecessário perturbar-se alguém com  as pequenas excentricidades contidas no documento. Os relatos de acontecimentos milagrosos ocorridos nos tempos bíblicos compreendem-se mais razoavelmente como exageros poéticos, como interpretações antigas de acontecimentos que nós hoje não consideraríamos milagrosos, ou como concessões à competição com as pretensões mágicas de outras religiões.
Creio que Deus continua constantemente se revelando ao homem ainda hoje, embora não por meio de “milagres”.
Cada nova descoberta da ciência é mais uma revelação da ordem que Deus incorporou ao Seu Universo. Deus aumenta em dignidade e poder através das manifestações da Sua razão e ordem, e não através de exibições de caprichos.
Porque eu, como cientista, creio em Deus, devo ao leitor a minha resposta a duas perguntas: como é que minha crença se coaduna com o meu respeito e confiança na ciência e em que espécie de Deus creio eu?
Responderei à primeira pergunta em primeiro lugar. Enquanto a ciência é um empreendimento inteiramente humano - pois comete erros - acho que o cientista leva uma vantagem real em qualquer esforço para conceber a idéia de Deus e de crer Nele. Pois é especialista em ver o invisível e em acreditar no essencialmente indefinível.
Por exemplo, o cientista moderno tem na cabeça simultaneamente duas ordens de idéias a respeito do mundo. A ordem mais simples trata dos objetos de maior dimensão - você eu, mesas, cadeiras, rochas, montanhas. Para estes tem o cientista, como qualquer outro homem, idéias comuns de todos os dias sobre solidez, localização, realidade.
Mas, quando o cientista força o seu pensamento a descer aos níveis básicos, entra em jogo uma ordem de idéias nova e abstrata. Ante os instrumentos de precisão de um físico nuclear, uma mesa é um escuro e revoluteante conjunto de cargas elétricas vagas e esquivas. Vista dessa forma, a mesa perde completamente a sua ilusão ampliada de solidez.
Ora, nenhum cientista jamais viu um elétron. “Elétron” é simplesmente o nome dado a um conjunto coerente de fenômenos que ocorrem cm certas circunstâncias. Por algum tempo os cientistas pensaram que os elétrons fossem partículas. Compreenderam depois que se tratava de movimentos ondulatórios. Hoje consideram-nos como partículas ou ondas (ou ambas). Entretanto, nada lhes parece mais “real”.
Tudo isso pode parecer absurdo a você. Mas justamente como há várias idéias complexas acerca do elétron - que às vezes é uma coisa, às vezes outra; não pode ser visto, nem localizado precisamente—assim também há várias idéias a respeito de Deus. Ele também, penso eu, não pode  ser visto nem localizado com precisão.
Quanto a segunda pergunta: no plano emocional, a relação entre mim e Deus é um assunto altamente pessoal. Quando me sinto inquieto ou atemorizado, quando estou profundamente preocupado com aqueles a quem amo, quando ouço os hinos que me trazem as recordações mais doces de minha infância, então Deus é para mim um ente diretamente confortador, um pai protetor; e, quando estou procurando solucionar algum problema íntimo de ordem moral, então Deus é uma voz clara e inconfundível, uma fonte inesgotável de orientação moral. Não me lembro de uma única vez em minha vida em que tivesse perguntado qual seria a atitude certa a tomar que a resposta não me fosse dada.
Como um homem sabe que uma mesa, se encarada de maneira rotineira e familiar, é um objeto sólido e seguro, sendo porém algo muito mais vago e mais complexo do que isso para um físico nuclear, não me surpreende nem me perturba que a relação emocional cotidiana entre mim e Deus seja muito diferente da idéia que faço Dele no plano intelectual. Tenho aí uma concepção um tanto abstrata de Deus. Esse Deus é mais grandioso, mais misterioso do que qualquer grupo de palavras que eu possa usar para tentar apreendê-lo.
Mas os conceitos realmente profundos da ciência são também inteiramente abstratos. Ao definir o “ponto”, tudo o que o geômetra é capaz de dizer é que se trata de uma entidade geométrica que não tem dimensão alguma. Essa é com certeza uma idéia estranha e essencialmente misteriosa. É de surpreender que quando tentamos adaptar as palavras a Deus, cujas dimensões estão além de toda a nossa capacidade de descrição, sejamos também forçados a empregar uma terminologia vaga? Se pudesse ser determinado por meio de alguns adjetivos, Ele não seria mais Deus.
No meu entender, Deus é a admirável mente misteriosa que criou o infinitamente pequeno e as vastas dimensões do Universo, inclusive os mistérios integrantes de você mesmo, de mim e das nossas mentes. É Ele que tem colocado em tudo isto ordem e beleza. É Ele que tem mostrado que a verdade, a fé e o amor nos proporcionam a solução para todos os problemas.
E, apesar dessas pesadas responsabilidades, Ele tem a inimaginável capacidade de preocupar-se individualmente com você e comigo. Ele nos permite a liberdade de determinarmos os nossos próprios destinos. Foram necessários milhões de anos para chegarmos ao estágio atual, e devemos levar ainda longos e longos períodos para completarmos o nosso desenvolvimento. Mas Ele colocou aptidões dentro de nós. O grandioso desígnio, que é às vezes difícil de discernir, e o impulso para o alto, que é às vezes lento em atuar, são Suas grandes dádivas à humanidade.
São esses dois conceitos de Deus - o muito pessoal e emocional e o abstrato e geral –coerentes? Posso sustentar  ao mesmo tempo estes dois modos de ver? O caso é que jamais tive necessidade de sustentá-los ao mesmo tempo.  São conceitos complementares da mesma forma que a ciência achou necessário acomodar conceitos complementares – sendo o  elétron uma “partícula” quando o quando o físico necessita considerá-la como tal, ora uma “onda” quando este conceito é mais apropriado. A coerência já não é mais procurada pela ciência no plano inferior, pois é inatingível. O importante é: são úteis s resultados? Funcionam? A religião atende plenamente a estas provas da mesma forma que a ciência.
Na igreja entoamos: “Glória a Deus nas alturas”. Não precisamos fazer quaisquer reservas a estas palavras. Com todo o reconhecimento devido à ciência, que tem escancarado a vastidão do espaço e do Universo mais além, Deus paira ainda mais alto.

DR, WARREN WEAVER, notável matemático e autor de inúmeros artigos e livros interpretativos sobre ciência, esteve associado a Fundação Rockefeller de 1932 a 1959, primeiramente como diretor de divisão, mais tarde como vice-presidente. É atualmente consultor e curador da Fundação Alfred P.Sloan. Foi primeiro agraciado com o Prêmio Expoente da Ciência, que lhe foi adjudicado em 1965 pela Fundação do Centro de Ciências do Pacífico, em reconhecimento por sua compreensão do significado da ciência para o homem contemporâneo.

 

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